El pueblo donde está?

Abril 3, 2008 por dricadrinks

O canto dos paneleiros da classe média nos panelaços contra Cristina era “se esse não é o povo, o povo onde está?”, aparentemente uma variante de alguma canção peronista.

Mas a pergunta ontem, quando fui ao ato de apoio à Cristina, era o trabalhador onde está? o movimento social onde está? A primeira pergunta é fácil de explicar: o ato convocava trabalhadores, mas que trabalhadores podem participar de um evento numa terça às quatro da tarde sem matar o trabalho?

A outra é um pouco mais complexa. Nos arredores da Casa Rosada, muitos carregavam bandeiras, é verdade, de algum dos 700 partidos inusitados da Argentina, como a Frente Transversal ou o Malvinas Argentinas.

Mas a maioria carregava mesmo pedaços de pau na mão, nenhum deles com cara de que um dia carregou uma bandeira. Tive a pachorra de perguntar pra um por que levava aquele pau e ele, com pachorra ainda maior,  respondeu que a bandeira se perdeu.

Ao ver que o número de paus e moleques que nem sabiam o que se passava ali só aumentava, decidi ir embora. Na saída, mais um ataque de inocência: perguntei a um policial por que as pessoas entravam com paus. E a cara-de-pau nunca foi tão grande: eram bandeiras, reproduziu o oficial. Diante da minha cara de “qual é?”, o policial teve que ser sincero e confessou: ninguém mandou que a gente controlasse isso, e nós só seguimos ordens.

Fui assistir ao discurso da Cristina em casa com aquela nuvenzinha preta sobre a cabeça. Foi a presidente acabar de falar e desabou o toró – a tempo de deixar sãos e secos os militantes declarados e os supostos militantes. Maldita chuva peronista. 

Meu primeiro panelaço

Março 26, 2008 por dricadrinks

Eu já tinha até acabado de escrever o texto. A reação demorou. De repente, não mais que de repente, uma panela começou a batucar. Olhei pra baixo, achando que era algum louco, mas o som vinha de cima. De uma das varandas da Recoleta, esse bairro “cheto” (nariz empinado) onde eu moro. Não mais que de repente a panela ganhou companhia. Em poucos minutos, eram muitas.

Fui pra janela ver a banda passar. Assutei com a esperteza dos argentinos. Não é à toa que todos os apartamentos aqui têm varanda. Assim eles não precisam nem sair de casa pra protestar. Tampas de panela à mão é só sair pra varanda. Filmei, tirei foto. A reação demorou. Mas não resisti. Peguei a minha tampa e uma colher de pau e saí a batucar.

Cristina com certeza não debruçou na janela, pensando que a banda tocava pra ela. Falou que o protesto do campo era o “piquete da abundância”. Falou o que acharam que não devia e ganhou outros tantos piquetes da abundância, vindos de bairros abundantes como a Recoleta e Palermo, mas que com toda razão acham que também têm direito a piquetar.

Confesso que a sensação foi boa. Como participar de um Olodum filantrópico. O problema não era meu (menos por não ser argentina e mais por não comer carne, o produto que sumiu das prateleiras), mas era tão fácil ajudar. Era só entrar na banda em vez de ficar vendo a banda passar.   

O pastor é pop. O pastor não poupa ninguém

Março 20, 2008 por dricadrinks

Enquanto a imprensa argentina se lamenta de que a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, tenha ignorado a Argentina em sua viagem pela América do Sul, os governantes argentinos se preocupam em dar as boas-vindas a um visitante mais popular.

Nessa semana, Luis Palau foi recebido, em Buenos Aires, pelo vice-presidente argentino, Julio Cobos, pelo prefeito da cidade, Mauricio Macri, por deputados de diferentes partidos e também por empresários. Em outras ocasiões, já esteve com o presidente americano, George W. Bush, e com o ex-mandatário Bill Clinton.

Se fosse Condoleezza, nenhuma surpresa. Tamanha receptividade impressiona porque Luis Palau, 73, é um pastor evangélico.

Nascido na Argentina, Palau se mudou nos anos 60 para os EUA onde ganhou fama. Considerado o líder evangélico mais importante da América Latina, viaja promovendo seus “festivais”, espécie de show religioso que reúne multidões misturando a pregação a apresentações de artistas locais.

Na capital argentina, o festival de ontem, fechou a avenida Nove de Julho, a principal do país, das 18h à 0h30, previa reunir entre 500 mil e um milhão de pessoas e atrapalhou o trânsito nas ruas da cidade, mais acostumadas a protestos. O fenômeno deve se repetir hoje na segunda edição do evento.

Segundo a Associação Luis Palau, o pastor já apresentou seus festivais a 22 milhões de pessoas em 80 países do mundo. Em Buenos Aires, foi declarado pela prefeitura como ato “de interesse nacional”.

Como parte de sua estratégia de marketing religioso, em cada país onde chega, tem encontros marcados com governantes locais. Por aqui, dizem as más línguas que teria sido ignorado pela presidente Cristina Kirchner. Nos EUA, no entanto, merece tratamento especial. Esteve ao menos seis vezes na Casa Branca. Foi convidado por Bush para visitarem juntos uma igreja em Pequim em 2005 e dizem que os dois fariam parte do mesmo grupo de oração apesar de seu assessor, Alberto Avila, afirmar que “é mais amigo de Clinton que de Bush”.

Avila disse, pouco antes do início do festival, que o pastor sempre se reúne com políticos nas cidades que visita “para conversar com eles e orar por eles”. Mas com a reportagem Palau não pôde orar nem conversar. Tinha que se preparar para o show.

Leonel Fernández e a minha mãe

Março 11, 2008 por dricadrinks

A papagaiada da reunião do Grupo do Rio, na última sexta-feira, me lembrou muito as brigas que tinha com meu irmão dos cinco aos doze (e ele dos 12 aos 17). Eu era a pentelha birrenta e bicuda, a la Correa, e ele o mais velho e mais forte, que achava que podia dar porrada sem pedir licença, numa linha meio Uribe de ser.

Mas o conflito sempre acabava rápido. Com o espírito do dominicano Leonel Fernández, minha mãe logo chegava, acabava com a palhaçada e mandava a gente fazer as pazes. Ganhava mais moral aquele que tomasse a iniciativa de levantar e dar o abraço primeiro, como o Uribe beijoqueiro.

Pra nós, faltava o Chávez cantando “Quisqueya”, mas sempre selávamos a paz com uma musiquinha que dizia assim: “nós somos amiguinhos, nós trocamos (?) de bem, bemrerembembembem!”.

Era só o que faltava para os amiguinhos presidentes do Grupo do Rio.    

Sacolinha – $,010. Salvar o planeta… não tem preço

Fevereiro 5, 2008 por dricadrinks

Os bonairenses decidiram levar a sério essa história de evitar o uso da sacolinha de plástico do supermercado. Ao menos é o que parece.

Hoje fui duas vezes no Dia% (esse mesmo daí, na Vila ou em Palermo, tem um Dia do lado da minha casa) e achei estranho os caixas perguntarem a cada cliente:

- Bolsa? (sacola pra eles)

Aceitei as duas vezes porque não estava com uma bolsa grande o suficiente pra carregar as mercadorias, mas vi que tinha alguma coisa estranha aí. Não é que na nota fiscal, entre o doce de leite e o papel higiênico, estava a tal da bolsa, por $ 0,10!

Fiquei aliviada por não ter pedido três e feliz pela elevada consciência ecológica argentina. Mas depois fiquei pensando: em nenhum lugar na loja havia um aviso do tipo “seja consciente, traga a sua sacola, poupe a natureza”.

No fim, era tudo balela. Na cidade que não tem nenhuma lata de lixo reciclável também não sobra preocupação com a sacolinha.  Salvar o planeta tem preço sim, mas não é o dono do Dia quem vai pagar…

Aqui…

Fevereiro 1, 2008 por dricadrinks

… o inimigo do Alien se chama Depredador

 

… Desejo e Reparação se chama Expiación, Deseo y Pecado (quanto mais ao sul, maior o nome do filme. Na Inglaterra, é só “Atonement”)

 

… Cobras e Lagartos se chama Cobras y lagartos, el perfume del amor (se não a mulherada nem assiste). Também estão em cartaz El Color del Pecado e Alma gemela

 

… House se chama Dr. House (se não o povo não entende)

 

… Paulo Coelho se chama Paulo Coelo (vai entender)

 

… cachorros cagam na esquina. Em todas elas. E o tempo todo. (ok, não tem nada a ver com o resto, mas também chama muita atenção)

Uma tímida caribenha

Janeiro 31, 2008 por dricadrinks

Buenos Aires. Primeira madrugada, depois de duas horas de atraso no vôo, cinco horas de rinite e ninguém na porta do prédio pra me esperar, dou de cara com um apartamento com uma cara pior do que a minha pós-rinite. Com cara de encardido. Muito encardido.

Primeiro dia, a coisa só piora no reino de Palermo. Tampão de ouvido a mão. Com uma construção barulhenta do lado, nem dá vontade de abrir a janela. Além de sujo, o apê fica claustrofóbico. Ok, não tenho jeito pra procurar apê pela internet. Então… como se fala macumba em espanhol? Preciso fazer uma urgente pro apê do Rodrigo (eu amanhã) ser melhor que esse. Não vai ser difícil.

            Primeiro dia, primeira perseguição policial. O ladrão trombou no Rodrigo, veio um cara armado correndo atrás. Deslumbrada, eu não vi nada até que vi os dois que estavam comigo do outro lado da rua. Corri. Fazer o quê?

            Primeiro dia, nada de turista. Quero ser local. O nome do meu supermercado é Disco e, se você passa de noite, pelo letreiro, jura que é uma balada. Como entender que entre a seção de doces e a de queijos, tem uma que é de “comida”?? Na dúvida, decidi pular direto pra dos pães e ali não tive dúvida: peguei um Bimbo. Light e com sete grãos. Evitei também o activia de ciruela. Mó cara de que dá piriri…

            Primeira noite, empanadas na esquina. De onde eu sou, pergunta o chico? Deixo ele adivinhar… Colômbia?, ele chuta com certeza. Apavorei. O quê? pela minha cor caribenha? Não, pelo tom de voz baixo. Ahahaha. Isso que dá não se sentir confortável com a língua ainda. Em um dia, virei uma tímida caribenha. Mas, calma, Buenos Aires, tampão de ouvido a mão. Esse é só o primeiro dia.

Dia Mundial do Mau Gosto

Setembro 22, 2007 por dricadrinks

No começo, fiquei constrangida. Parecia que as pessoas saudáveis e praticantes de atividades físicas tinham invadido as ruas hoje de manhã. Não que eu não seja adepta das práticas esportivas, mas elas deveriam ser proibidas nas manhãs de sábado e domingo.

Comecei a olhar dentro dos carros, procurando um olhar cúmplice, alguém pra dividir a culpa. Mas ninguém roía as unhas e se escondia dos pedestres e ciclistas como eu.

Antes que a culpa me consumisse, resolvi atropelá-la. Sim, eu vou pra balada e volto às seis da manhã. Sim, eu moro na Vila Madalena e trabalho na Barão de Limeira, e pra lá não tem ônibus direto . Não, eu não vou acordar uma hora mais cedo e pegar um ônibus de ressaca para trabalhar no sábado de manhã.

 É, eu aderi ao carro no Dia Mundial sem Carro! Sou do antimovimento. Pensando nas horas a mais de sono e na chatice que é seguir a turminha do politicamente correto, não vejo nada de errado nem de mau gosto nisso.

No fim, adorei o Dia sem Carro. Assim, me livrei dos outros pra andar à vontade com o meu.

Agosto 21, 2007 por dricadrinks

A desajustada

August 11th, 2007

Na Revista de 5/8:

Em descompasso com o mito, outra Marilyn Monroe surge das lentes do americano Bert Stern

menos diva, mais Norma

por Adriana Küchler

fotos Bert Stern

Bert Stern não pensou duas vezes. Com o “sim” de Marilyn Monroe ao convite para um ensaio de fotos e carta-branca da “Vogue” americana para clicar o que quisesse, o fotógrafo de moda desejou colocar a musa na capa da revista.

Não precisou de muito. Levou somente lenços e jóias para a suíte do hotel Bel-Air, em Los Angeles, no dia 23 de junho de 1962. Foi ela quem perguntou: “Você quer fazer nus?”. Como se em nenhum momento tivesse pensado nisso, ele pareceu ceder: “Essa é uma boa idéia”.

Foram as últimas fotos da diva, que morreu no dia 5 de agosto de 1962, há exatos 45 anos, por overdose de barbitúricos. Uma das mulheres mais desejadas do mundo, Marilyn não passava por um bom momento, contou à Revista por telefone, de Nova York, o fotógrafo Bert Stern, perto dos 80 (também vaidoso, ele não revela a idade). “Ela havia acabado de ser despedida de um filme, estava divorciada do último marido [o dramaturgo Arthur Miller], tinha alguns homens diferentes. E estava envelhecendo.”

Bingo. Aquele seria o momento ideal para dar uma levantada na carreira -e na auto-estima- da loira platinada. “Achei que colocá-la na capa da ‘Vogue’ seria uma boa idéia, original. Como uma revista de moda, eles nunca haviam dado uma capa com uma personalidade. Ela foi a primeira.”

Aos 36 anos, depois do sucesso em “Os Desajustados” e começando a receber olhares mais interessados da crítica, Norma Jeane carregava uma beleza madura, algumas ruguinhas e uma acentuada cicatriz na barriga, resultado da cirurgia na vesícula realizada pouco mais de um mês antes do ensaio. “Era uma grande cicatriz, mas não me incomodou. Uma mulher pode ser bonita por sua cicatriz”, diz Stern.

Além de sedutora e fatal, nesse ensaio Marilyn também confirmou a fama de atrasada que conquistou nos sets de filmagem. Deixou Stern esperando por cinco horas. Para honrar também a reputação de insegura, pediu três garrafas de champanhe Dom Pérignon -só para ela. Com a loira relaxada, enfim, o ensaio durou quase 12 horas. “Era fácil trabalhar com ela”, lembra Stern. “Quis saber sobre os filmes que eu fiz, era muito curiosa. Muito divertida. Engraçada, sexy, bonita.”

Mas a beleza nua de Marilyn não interessou à “Vogue”. “Quando eles viram como ela estava linda, quiseram fazer um ensaio de moda, com um vestido preto.” Do total de 2.571 cliques feitos por Stern em três dias, foram as imagens com o vestido que a revista escolheu e que publicou um dia depois da morte da atriz.

As outras fotografias, as que revelam uma Marilyn ao mesmo tempo deusa e mortal, com caras, bocas, pinta e uma vesícula extraída -e visivelmente mais magra depois da cirurgia-, foram publicadas em livros estrangeiros a partir de 1982 e integraram uma exposição sobre a diva, em Nova York, em 2004.

No ano passado, o material ganhou mostra exclusiva em Paris. Inéditas no Brasil e antecipadas pela Revista, as fotos de Bert Stern chegam por aqui trazidas pela editora Sextante, que em outubro publica um catálogo e organiza uma exposição no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A São Paulo, chegam em 25 de janeiro de 2008. Se confirmada a data, é como se Marilyn cantasse novamente “Parabéns a Você”. Dessa vez para a cidade.

“Quando o mundo não te ama, você vai às compras”

August 5th, 2007

  Tem gente que come, gente que bebe, gente que joga e que vai às compras. Minha primeira entrevista em francês, com o genial Gilles Lipovetsky, publicada na Revista de 29/7:

Em seu novo livro “A Felicidade Paradoxal”, que será lançado em setembro pela Companhia das Letras, o polêmico sociólogo francês Gilles Lipovetsky destrincha aspectos positivos e negativos de mais um termo lançado por ele, a “era do hiperconsumo”. À Revista, Lipovetsky diz que comprar pode ser uma forma de amar a si mesmo e que as liquidações são um “fenômeno contraditório”.  

Como as liquidações se inserem no contexto do hiperconsumo?

Há duas coisas que é preciso separar. Podemos interpretar as liquidações como o espelho da expressão hiperconsumo. As pessoas querem comprar mais, mesmo o que não precisam. Compram três pares de sapatos, que talvez nunca usem. Há nas liquidações algo de irracional, de manifestação de excesso, que é emblemática da hipermodernidade. Ao mesmo tempo, há nas liquidações um outro aspecto do hiperconsumo que é interessante. De certa maneira, a loucura das liquidações significa que a moda é menos terrorista do que em outros tempos. Hoje, não somos mais obrigados a comprar imediatamente o último modelo. A moda se tornou mais tolerante. Isso significa que as pessoas podem esperar para fazer boas compras. Sabem que vai haver liquidação e portanto têm a satisfação de terem feito um bom negócio. São dois fenômenos contraditórios. 

 É normal que as pessoas percam o controle diante das compras? De quem é a culpa?

Há o que a gente chama hoje de vítimas da moda e há as pessoas superendividadas, que fazem tantas compras que não têm dinheiro para pagar as contas. Há muitas pessoas nessa situação. Mas será que a publicidade é a verdadeira responsável por esse problema? Estudos mostram que é mais complicado. Com freqüência, os superendividados tiveram um acidente em sua existência: perderam o trabalho, se divorciaram. O superendividamento é uma espécie de vício. Há as compras impulsivas e as compulsivas. Quando há uma perda de controle de si mesmo, é como com a obesidade. Há a perda de regras, de disciplina. O consumidor se torna irracional. Então, de um lado, temos um consumidor cada vez mais racional, que se informa, pesquisa na internet, compara preços. E, do outro lado, há uma verdadeira loucura de consumo excessivo. De um lado, um consumidor obcecado por sua saúde e, do outro, a obesidade, que é uma perda de controle.  

Para essas pessoas, consumir funciona como terapia?

Não só para quem não tem controle. Hoje, o consumo é para todos uma forma de terapia. Se você está deprimido, vai ao cinema ou ao cabeleireiro. Antigamente, as pessoas iam à igreja. Hoje, vão ao shopping center. É uma forma de se esquecer e também de se dar prazer porque a vida, com freqüência, te faz mal. É uma forma de fugir da realidade e também de suportar os dramas ou os problemas pessoais e interpessoais. Há cada vez mais pessoas que vivem sozinhas. O que fazem as pessoas sozinhas? Resta a eles a consumir. Mas, entenda, o consumo não é só uma terapia. Há muitas coisas positivas no hiperconsumo. Permite que você se comunique com as pessoas, você tem prazer em comprar coisas interessantes. Também por uma visão terapêutica, é uma maneira de se amar. Quando o mundo e as pessoas não te amam, você tenta amar a si mesmo, e então você vai às compras. [Adriana Küchler] 

Hippie hype, lá vem o sol ou yoga fora d’água

July 18th, 2007

p1010418.JPG21 de junho. Solstício de verão no hemisfério norte, lá onde fica Nova York, essa cidade esquisita, onde, com tanto parque, as pessoas decidem celebrar que “lá vem o sol” no meio de um dos grandes ícones do caos mundial. A Times Square.

Recém-chegada na cidade grande e ex-praticante de yoga por um tempo curto o suficiente para não querer me expor, eu me escondo de jeans e camiseta atrás das dezenas de yogues que se prepararam para aquele momento com suas calças de tecido molinho e seus colchonetes.

Mas a desengonçada professora me acha e, parecendo adivinhar a minha vergonha, me leva para a primeira fila da exibição. Melhor não reclamar. No mínimo, as fotos vão ficar o máximo.

Vamos às primeiras orientações da mestra: ela avisa que vai ter uma auxiliar para ajudar os mais atrapalhados. “Então, se você sentir uma mão estranha…  lembre-se de que está na Times Square.” E não é só isso: “você não está só na Times Square, está num mundo que gira”. ufa…

Comecemos então a desempenhar os ásanas, os movimentos contorcionistas zen. Nos Isteites, os ásanas ganham nomes diferentes. Pra não deixar a gente esquecer do Iraque, tem o Warrior 1 e o Warrior 2. Pra não deixar a gente esquecer como eles são engraçadinhos tem o Vera 1, Vera 2… “Vera Wang”, brinca a professora, que, ao menos tem auto-crítica pra avisar que não vai  largar o seu “day job”.

Utanasana é algo como empinar a bunda na direção do logo do Yahoo e apontar o queixo pro anúncio da LG. Opa, a mestre yoga corrige: “traga seus quadris da oitava avenida de volta para a Broadway”.

E é da Broadway que vêm um comboio enlouquecido de “new york city cops” e suas sirenes tresloucadas, seguidas pelas buzinas de hordas de taxistas e por manadas de skatistas, todos tentando interromper nosso momento de meditação naquele local de paz.

Policiais também nos cercam dentro do nosso cercadinho. “Estranho vocês pensarem que NÓS precisamos de segurança”, se assusta a zen-mór.

Mas quem atrapalha mesmo são os turistas. Enquanto estamos superconfortáveis com as pernas abertas para o céu de Manhattan, lá vêm, não o sol, mas os flashes. Vendo pelo lado bom, somos apenas mais um ponto turístico da Grande (e Estranha) Maçã.

Tento me concentrar, mas o loirinho ao lado não deixa e cai com a bunda bem em cima da minha mão. Vendo meu embaraço, a professora solta: “se o parceiro ao lado encostar em você, deixe… O contato é bom.”

Mas a vergonha só aumenta: é hora de levantar o quadril pro alto com as pernas abertas em direção às câmeras. Disfarço. Em vão.  “Você veio até a Times Square para ter preguiça?”, diz ela, que, a essa altura, parece me amar por dar deixas para todas as suas piadinhas.

Enquanto entoamos o mantra “oooooooohm”, o letreiro logo atrás anuncia suplementos vitamínicos com atletas bombados enquanto outro vende os benefícios de se entrar para o exército com corpos musculosos. Do outro lado, o trailer do novo filme dos Simpsons. Logo ali, um painel de notícias avisa que o Egito chama líderes para conversas de paz em apoio a Abbas. Que alívio. Agora sim, começo a relaxar.

Somos então convocados a olhar para o céu. “Vejam como há luz”. Na verdade, há luz até demais. Mas natural é só a do céu mesmo. E é de lá de cima que começa a cair o maior toró, antecipando o fim da aula em 15 minutos. Quando a professora deseja as boas vindas ao verão, os alunos já estão longe, fugindo, com seus colchõezinhos e suas calças de sarja branca, de um temporal digno da caótica Times Square.

Dez coisas

July 2nd, 2007

Estou reunindo informacoes de utilidade publica para os futuros visitantes da cidade. A ideia e fazer as dez coisas que vc tem que saber antes de vir pra Nova York. Ai vai o comeco:

1 – Nova York nao tem relogios publicos

2 – E tambem nao tem cybercafes

3 – As mulheres nao usam saltos na rua. Eles vao na bolsa para serem trocados pelas badaladas Havaianas assim que a mulherada entra no trabalho

4 – Cadeiras de roda motorizadas sao tao populares quanto tvs de plasma. sim, populares!

5 – Nova York, assim como Sao Paulo, dorme. e muito. nao e nada simples achar algum lugar legal pra comer depois da meia-noite. city that never sleeps? balela

6 – Em Nova York se fuma andando, na chuva, na rua (se vc esta em um bar, clube ou restaurante), em areas confinadas por linhas que quase fazem aquilo parecer uma jaula. ou nao se fuma

7- Dar um cigarro aqui, nao e uma coisa tao comum quanto no Brasil. Quando alguem te pedir um cigarro em Nova York, deve lembrar que praticamente esta dando esmola pro pedinte. Um maco custa uns US$ 8. O cara provavelmente e um pao duro. Em vez de dar, voce pode cobrar

8 - Algumas coisas que podem te render multa: beber na rua, servir bebida depois das 4h, sair com o microsystem no ombro apavorando o metro, deixar seu cachorro latindo muito tempo. Alias, coco de cachorro na rua da multa. De cavalo, nao.

9 – to be continued…

Quote of the day: Nova York e segura, mas ta roubando todo o meu dinheiro

Day one

June 22nd, 2007

Depois de um voo mal dormido, com filmes C que comparti com celebridades C (Paulo Ricardo e uma bandinha poser que deve ter tocado na Fashion Week), consegui a incrivel proeza de ser cantada pelo tiozinho que concede a entrada no pais (sim, garanti um visto de seis meses e um convite pra conhecer uns cassinos). Pra chegar no ape fofo da Lu (e da Li), tive que driblar minha primeira informacao de rua errada e as pessoas que insistiam em nao ver a minha mala.

Um almoco mexicano e uma deitada numa area fundamental do Central Park (estrategicamente chamada pela lu de gramadao) depois, fomos comprar o meu Ipod. sim, ele e vermelho. nao porque eu achei lindo, claro, mas porque com ele eu contribui para acabar com a fome na somalia, o cancer na mongolia, ou algo assim…
A noite de estreia foi no Harlem pra pisar com o pe esquerdo, que e o melhor.

O muquifo se chamava St. Nicks Pub e a primeira atracao era uma japonesa que revezava folks em suas lingua natal com musicas de manga e You’ve got a friend pra dar um toque americano. Pra nosso alivio, a japa foi logo substituida por uns figuras fudidos de jazz. O engracado foi quando a gente soube que estavam celebrando a morte do amigo George Bragg. O clima nao tinha nada de funeral. Luzinhas de Natal, uma juke box, cerveja jamaicana, vinho de rosca e uma baratinha no balcao compunham o cenario do qual eu nao podia fugir pra fumar porque tava chovendo.

Quem fugiu foi a Lucy (como I Love Lucy, ela fez questao de me lembrar), a primeira amiga que fiz por aqui. Me apaixonei por ela na hora que ela contou, rindo, que tava la bebendo desde as 18h30 (era meia-noite). So nao esperava que a paixao acabasse tao rapido: Lucy foi a primeira mulher que ja me pediu pra pagar um drink.

Quote of the day: Quem ta na chuva e para fumar

Objetivo do dia: nao gastar todo o dinheiro na primeira semana, principalmente em drinks para mulheres

Novo endereco do Hercovitch: Protect Bag asa D

June 22nd, 2007

A viagem, quem nao sabe, comeca no aeroporto. Ou ate antes dele. Depois de correr com as malas na Faria Lima e parar o Airport Bus Service (o maximo do transporte para o pobre deluxe) no grito, a mocinha do check in me pergunta se eu tenho um ixqueiro. Claro que eu tenho, e aquele do Hercovitch, que ela me manda jogar fora sob o risco de ser multada. Sem me conformar em perder o bibelo fashion de novo, e sem encontrar um lugar pra esconde-lo por 17 dias, fui atras de um guardiao. Seu nome e Marcos e trabalha na Protect Bag, da asa D. Nao fuma, nem parece ser gay. O que reduz as chances de ele dar uma elza no meu, como eu expliquei pra ele, “isqueiro de estimacao”. Guardou numa mala “a que so eu tenho acesso”. Mas temos um problema “a la” Feitico de Aquila: ele trabalha de noite e eu chego de manha. Entao, o recado e o seguinte: se alguem passar por Guarulhos antes do dia 7, por favor, resgate o Hercovitch: endereco Protect Bag, asa D. A/C Marcos.

June 21st, 2007

Garota de Ipanema, Garota de Santa Teresa

April 8th, 2007

Festa de família, além de todas as baixarias abaixo, é também tempo de descobertas. As minhas preferidas são justamente as familiares, mas há também as auto-descobertas (que nada têm a ver com auto-ajuda).

Das familiares, a mais gostosa desse fim de semana foi saber que a vó Érika antes de ser vó era garota de Ipanema, de cabelão comprido e maiô-shortinho desfilando num doce balanço a caminho do mar, mas que também gostava de correr pelada, mais cheia de graça, com o meu avô.

A surpresa acaba virando obobviedade quando a gente lembra que ela é a vó que sempre deixa os namorados dormirem juntos e que cala, mas não faz cara feira, quando sexo é assunto e não tabu.

Aí a gente entende porque a outra, a Ernestine, a primeira do velho Erich, morreu provavelmente cantando “ai, por que estou tão sozinhaaa…” enquanto a vó vive rodeada de bicho e gente. Porque ela era a garota (alemã) de Ipanema.

E das auto-pessoais, a melhor foi o bonde. Que me levou no meio de dois dos meus amores e dos amores deles até a porta do hospital de onde eu vim (que até então era só um número 4 lá em cima quando passava pela Sapucaí), lá no morro onde eu nasci.

E me levou a comer feijoada e a dançar o carimbo no meio do mato do morro do hippie chique. E me levou também àquele momento piegas, cafona, comum em que dá até pra acreditar que a felicidade está nas pequenas coisas e que eu não nasci naquele morro só por causa do convênio médico do seu Altir. Não por isso. E sim porque eu sou meio hippie, meio feijoada, meio bonde, piegas, cafona e comum. Porque eu sou a garota de Santa Teresa.

Festa no céu ou niu rave

February 23rd, 2007

No Folhateen de 5/2:ADRIANA KÜCHLER
DO GUIA DA FOLHA

Se o electro é por nós, quem será contra nós? Substitua o electro acima por rock, reggae, axé e até psy-trance, e a frase ainda servirá como slogan para a Cristoteca, balada que reúne cerca de mil jovens cristãos e simpatizantes toda sexta-feira na comunidade Aliança da Misericórdia (r. Monsenhor Andrade, 746, Brás, São Paulo, SP).
O promoter da festa e futuro padre Vanderson Costa, 23, é quem explica: “A evangelização noturna usa um elemento do contexto jovem, a música, para alcançar o jovem. A diferença é que uma balada secular quer ganhar dinheiro em cima da diversão. Nossa finalidade é evangelizar através dela”.
A diversão funciona assim: às 23h30 começa a missa, num grande galpão, com luz negra, e um padre conduzindo. Maria está de um lado do padre, a banda de outro, dançarinos em volta. À 1h30, entra o DJ e depois uma banda. Rola trenzinho, rodinha de break. E a galera dança como se estivesse numa rave até o galo da missa cantar.
Ambiente aparentemente propício para ficadas, certo? Nem tanto assim, afirma, de camisa da M. Officer, o simpático Vanderson, que, se não fosse um pré-padre, seria um bom partido em qualquer balada. “Grande parte dos jovens que vem são casais de namorados mas também vêm jovens que procuram namorados, e a gente não acha isso errado.”

Música perigosa
Errado mesmo é quando um casalzinho decide “avançar o sinal”. Aí é hora de chamar a “equipe de evangelização corpo-a-corpo”. A missão: fazer “intervenções” com quem esteja alcoolizado, fumando ou com casaizinhos muito animados. “Propagamos a castidade, o namoro com respeito mútuo, sem tomar posse do corpo um do outro. Então, com muito jeito, essa equipe também entra em contato com os casais que ainda não estejam inseridos nessa mentalidade.”
A patrulha é uma boa idéia, segundo o padre João Henrique, 51, italiano que segue a linha da renovação carismática (ou linha padre Marcelo), buscador de “ovelhas perdidas” e um dos criadores da balada.
“As casas noturnas têm aqueles caras de terno preto e três metros de altura, armados, prontos para intervir em casos de pessoas que incomodam os outros. A Cristoteca é um ambiente saudável.”
Intervenção direta rola mesmo é sobre a música: do reggae ao rock, todas as letras têm de falar de Cristo. Até (e principalmente) a eletrônica, comandada pelos DJs da equipe Electrocristo. “É um estilo de música muito perigoso”, esclarece Vanderson.
“Cada som mexe com uma parte do corpo. Assim, te influencia a fazer movimentos que talvez não sejam do seu costume. Pode levar a uma agressividade, a uma sensualidade, o que não é o nosso objetivo”, diz.
Padre Henrique explica que realmente determinados tipos de música suscitam instintos negativos de violência, de descontrole emocional. E que isso “não é uma descoberta da igreja, mas do FBI”, prega.
Na dúvida, nenhuma música eletrônica fica mais de cinco minutos só no tunts-tunts. Quando você menos espera, a mensagem de Jesus chega via progressive ou psy. “Se algo errado acontece, a gente pára o som, e fala: “Galera, vamos rezar’”, diz o DJ Léo Guimarães.
Cleber Marques Ramos, 21, é um adepto do estilo clubber cristão. “O tecno mundano tem muita galinhagem, passa-passa de mão, beija um, beija outro. Antes eu gostava de samba, de black. Agora só me dedico ao tecno de Jesus.”
Mas nem só da palavra de Deus vive o homem, e os jovens da Cristoteca também ouvem outros sons. As amigas Mayara Milinavicius, 16, que toca teclado na igreja, e Rafaela Maia, 16, citam: Inimigos da HP, Jeito Moleque, Charlie Brown Jr…
Charlie Brown, meninas? Com aquelas letras cheias de “Eu não sei fazer poesia, mas que se f…”? “Dessas partes a gente não gosta. A gente pula.”

Drinques divinos
As meninas se incomodam com baladas em que todo mundo fuma, bebe, briga. Lá não rola nada disso. Os pais adoram. É uma benção! Se alguém quiser encher a cara, a opção mais louca são os “cristodrinques”, batidas doces, esfumaçantes e não- alcóolicas. No cardápio, não tem capeta, é claro, mas você pode escolher entre o Apocalipse (suco de uva, hall’s, energético e leite condensado), o Coquinho de Deus (leite de coco, soda, energético e leite condensado) ou o Madre Teresa (paçoca, pó de guaraná, açaí, leite condensado e creme de leite), oferecidos a apenas R$ 2 pelo missionário dos drinques Jeferson Santos Barbosa.
Na fila para comprar o seu está o casal Roberta Ferreira, 18, e Rafael Pessuto, 18, que namora há um mês e aprecia o ambiente saudável em vários aspectos. “Ficar não é saudável; é como se você estivesse usando a outra pessoa”, proclama Roberta.

Uma mulher santa
Aliás, achar um casal ficando é missão árdua nas pistas do Senhor. E aí, Augusto César, já ficou com alguém aqui? “Graças a Deus não.” Graças a Deus? “Quer dizer, ainda não. Ficar por ficar não é legal. A gente conversa, pega o telefone, marca outro dia.”
Nova tentativa. Fernando Henrique Ferreira, 18, já ficou, mas não exatamente lá. “Quando a gente vê que tá pintando clima, vai lá fora pra respeitar.”
As cantadas não seguem o padrão convencional nem na comunidade da Cristoteca no Orkut (que tem 6.400 membros). Em um post, o cristotequeiro Marcos André, 18, anuncia sua próxima balada: “Vou estar lá louvando muito e, quem sabe, encontrar uma mulher santa. Porque nem toda garota entende esse papo de retiro, de sábado à tarde na igreja, sabe como é”.
Nem todo mundo entende. “Quando você fala que é da igreja, as pessoas acham que você passa três horas com o rosário na mão, de vestido compridão e orando. Rola um preconceito”, diz Shirley Lisboa, 22, que adora Black Sabbath. Ela resume a estratégia de sucesso da Cristoteca. “Eles misturam letras católicas com um som mais puts-puts pra entreter. Porque, se põem aquelas músicas mais “oooo”, é sono na certa. Todo mundo dorme.”

Casamento moderno

February 23rd, 2007

Nova viagem de busão à vista, é hora de pensar nos novos casórios:

Tem gente que escolhe a poltrona do ônibus para ficar na frente, apreciando a paisagem. Sempre tem a galera do fundão, a do barulho. E a grande maioria, os que exigem a janelinha.

O que ninguém pensa na hora de escoher a 3, a 13 ou a 23 é que naquela hora você está escolhendo o seu namorado/a pelas próximas seis horas, se estiver indo pro Rio, ou dez horas se o seu destino for Floripa.

Aliás, quando você escolhe um ônibus numa viagem noturna, está selecionando 43 pessoas para dividir o seu leito.

É neles que você vai esbarrar a noite inteira, cair no ombro, dormir de conchinha, pedir licença pra ir no banheiro e  silêncio na hora de dormir.

E, na hora em que um deles começar a roncar, você vai pensar: por que eu fui escolher o das onze e meia? Como eu, no outro dia, que fui pedir ao meu marido provisório da poltrona 15 que parasse de roncar, ao que ele respondeu: o que que eu posso fazer?”.

Antecipamos a crise dos sete anos para as sete horas de viagem. Mas ao menos não precisamos de terapia de casal. Ninguém meteu a colher, ele acolheu a bronca e sossegou, e eu e meus outros 42 parceiros conseguimos sentar e dormir tranqüilos. E fomos felizes para sempre. Pelas três horas seguintes.

February 23rd, 2007

Festa de família é sempre prato cheio pruma crônica. Já que a minha, nos últimos anos, teve de cachorra perdendo a virgindade na hora do amigo oculto a tio se comendo com viagra, eu não poderia faltar ao aniversário da minha vó Errrrika, que reuniria os netos Adrrriana, Errrika, Patrrrick, Carrrolina, Conrrrado, Karrrin e Rrrebeka. E nem precisou chegar no sítio para as bizarrices aparecerem. Ainda na cada da vó encontrei tia Eva, uma senhora como a minha vó, meio alemã, meio brasileira, e se fosse possível a alguém ter três metades, meio americana também, já que mora em Niu Iorque.

Sendo que a última lembrança que eu tinha da tia era da vez em que ela chegou cheia de brinquedos dos isteites, há uns bons dez anos, fui dar um abraço na tia, mas só apertei o ar. “Não, não, não”, disse a senhora de cabelos totalmente brancos e blusa dourada. Com alguns minutos de atraso, a outra vó, Frida, me precaveu: “Não pode tocar nela”.

Depois de ser lembrada pelos primos de que a tia Eva não era flor que se beije (e que ela trouxe dos isteites pros pirralhos de sete anos um desenho falado em inglês ou em grego, que pra gente dava na mesma), passamos o dia arquitetando atacar a tia com um abraço coletivo, que não concretizamos porque bêbado esquece logo das coisas.

No dia seguinte, fui me despedir da tia com um “falou” e beijei a prima ao lado. Com o gato da vovó no colo, Eva então me explicou que, como teve câncer, era alvo fácil de germes e micróbios e pediu desculpas. Eu, que já beijei muuuuito, comecei a me imaginar como um grande motel de germes e micróbios e aceitei.

Tia Eva e eu decidimos então ter um relacionamento aberto e moderno: vamos conversar pelo skype, ela lá e eu cá. sem apertos nem abraços. só com beijos virtuais.

PS: Tia Eva tem outra particularidade. Ao contrário do resto da família, que adora erres e põe a letra onde conseguir enfiar, ela tem um probleminha com esse som e, há muitos anos, chama dona Errrika de Cotinha.