Posts de Março, 2008

Meu primeiro panelaço

Março 26, 2008

Eu já tinha até acabado de escrever o texto. A reação demorou. De repente, não mais que de repente, uma panela começou a batucar. Olhei pra baixo, achando que era algum louco, mas o som vinha de cima. De uma das varandas da Recoleta, esse bairro “cheto” (nariz empinado) onde eu moro. Não mais que de repente a panela ganhou companhia. Em poucos minutos, eram muitas.

Fui pra janela ver a banda passar. Assutei com a esperteza dos argentinos. Não é à toa que todos os apartamentos aqui têm varanda. Assim eles não precisam nem sair de casa pra protestar. Tampas de panela à mão é só sair pra varanda. Filmei, tirei foto. A reação demorou. Mas não resisti. Peguei a minha tampa e uma colher de pau e saí a batucar.

Cristina com certeza não debruçou na janela, pensando que a banda tocava pra ela. Falou que o protesto do campo era o “piquete da abundância”. Falou o que acharam que não devia e ganhou outros tantos piquetes da abundância, vindos de bairros abundantes como a Recoleta e Palermo, mas que com toda razão acham que também têm direito a piquetar.

Confesso que a sensação foi boa. Como participar de um Olodum filantrópico. O problema não era meu (menos por não ser argentina e mais por não comer carne, o produto que sumiu das prateleiras), mas era tão fácil ajudar. Era só entrar na banda em vez de ficar vendo a banda passar.   

O pastor é pop. O pastor não poupa ninguém

Março 20, 2008

Enquanto a imprensa argentina se lamenta de que a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, tenha ignorado a Argentina em sua viagem pela América do Sul, os governantes argentinos se preocupam em dar as boas-vindas a um visitante mais popular.

Nessa semana, Luis Palau foi recebido, em Buenos Aires, pelo vice-presidente argentino, Julio Cobos, pelo prefeito da cidade, Mauricio Macri, por deputados de diferentes partidos e também por empresários. Em outras ocasiões, já esteve com o presidente americano, George W. Bush, e com o ex-mandatário Bill Clinton.

Se fosse Condoleezza, nenhuma surpresa. Tamanha receptividade impressiona porque Luis Palau, 73, é um pastor evangélico.

Nascido na Argentina, Palau se mudou nos anos 60 para os EUA onde ganhou fama. Considerado o líder evangélico mais importante da América Latina, viaja promovendo seus “festivais”, espécie de show religioso que reúne multidões misturando a pregação a apresentações de artistas locais.

Na capital argentina, o festival de ontem, fechou a avenida Nove de Julho, a principal do país, das 18h à 0h30, previa reunir entre 500 mil e um milhão de pessoas e atrapalhou o trânsito nas ruas da cidade, mais acostumadas a protestos. O fenômeno deve se repetir hoje na segunda edição do evento.

Segundo a Associação Luis Palau, o pastor já apresentou seus festivais a 22 milhões de pessoas em 80 países do mundo. Em Buenos Aires, foi declarado pela prefeitura como ato “de interesse nacional”.

Como parte de sua estratégia de marketing religioso, em cada país onde chega, tem encontros marcados com governantes locais. Por aqui, dizem as más línguas que teria sido ignorado pela presidente Cristina Kirchner. Nos EUA, no entanto, merece tratamento especial. Esteve ao menos seis vezes na Casa Branca. Foi convidado por Bush para visitarem juntos uma igreja em Pequim em 2005 e dizem que os dois fariam parte do mesmo grupo de oração apesar de seu assessor, Alberto Avila, afirmar que “é mais amigo de Clinton que de Bush”.

Avila disse, pouco antes do início do festival, que o pastor sempre se reúne com políticos nas cidades que visita “para conversar com eles e orar por eles”. Mas com a reportagem Palau não pôde orar nem conversar. Tinha que se preparar para o show.

Leonel Fernández e a minha mãe

Março 11, 2008

A papagaiada da reunião do Grupo do Rio, na última sexta-feira, me lembrou muito as brigas que tinha com meu irmão dos cinco aos doze (e ele dos 12 aos 17). Eu era a pentelha birrenta e bicuda, a la Correa, e ele o mais velho e mais forte, que achava que podia dar porrada sem pedir licença, numa linha meio Uribe de ser.

Mas o conflito sempre acabava rápido. Com o espírito do dominicano Leonel Fernández, minha mãe logo chegava, acabava com a palhaçada e mandava a gente fazer as pazes. Ganhava mais moral aquele que tomasse a iniciativa de levantar e dar o abraço primeiro, como o Uribe beijoqueiro.

Pra nós, faltava o Chávez cantando “Quisqueya”, mas sempre selávamos a paz com uma musiquinha que dizia assim: “nós somos amiguinhos, nós trocamos (?) de bem, bemrerembembembem!”.

Era só o que faltava para os amiguinhos presidentes do Grupo do Rio.