Eu já tinha até acabado de escrever o texto. A reação demorou. De repente, não mais que de repente, uma panela começou a batucar. Olhei pra baixo, achando que era algum louco, mas o som vinha de cima. De uma das varandas da Recoleta, esse bairro “cheto” (nariz empinado) onde eu moro. Não mais que de repente a panela ganhou companhia. Em poucos minutos, eram muitas.
Fui pra janela ver a banda passar. Assutei com a esperteza dos argentinos. Não é à toa que todos os apartamentos aqui têm varanda. Assim eles não precisam nem sair de casa pra protestar. Tampas de panela à mão é só sair pra varanda. Filmei, tirei foto. A reação demorou. Mas não resisti. Peguei a minha tampa e uma colher de pau e saí a batucar.
Cristina com certeza não debruçou na janela, pensando que a banda tocava pra ela. Falou que o protesto do campo era o “piquete da abundância”. Falou o que acharam que não devia e ganhou outros tantos piquetes da abundância, vindos de bairros abundantes como a Recoleta e Palermo, mas que com toda razão acham que também têm direito a piquetar.
Confesso que a sensação foi boa. Como participar de um Olodum filantrópico. O problema não era meu (menos por não ser argentina e mais por não comer carne, o produto que sumiu das prateleiras), mas era tão fácil ajudar. Era só entrar na banda em vez de ficar vendo a banda passar.