O canto dos paneleiros da classe média nos panelaços contra Cristina era “se esse não é o povo, o povo onde está?”, aparentemente uma variante de alguma canção peronista.
Mas a pergunta ontem, quando fui ao ato de apoio à Cristina, era o trabalhador onde está? o movimento social onde está? A primeira pergunta é fácil de explicar: o ato convocava trabalhadores, mas que trabalhadores podem participar de um evento numa terça às quatro da tarde sem matar o trabalho?
A outra é um pouco mais complexa. Nos arredores da Casa Rosada, muitos carregavam bandeiras, é verdade, de algum dos 700 partidos inusitados da Argentina, como a Frente Transversal ou o Malvinas Argentinas.
Mas a maioria carregava mesmo pedaços de pau na mão, nenhum deles com cara de que um dia carregou uma bandeira. Tive a pachorra de perguntar pra um por que levava aquele pau e ele, com pachorra ainda maior, respondeu que a bandeira se perdeu.
Ao ver que o número de paus e moleques que nem sabiam o que se passava ali só aumentava, decidi ir embora. Na saída, mais um ataque de inocência: perguntei a um policial por que as pessoas entravam com paus. E a cara-de-pau nunca foi tão grande: eram bandeiras, reproduziu o oficial. Diante da minha cara de “qual é?”, o policial teve que ser sincero e confessou: ninguém mandou que a gente controlasse isso, e nós só seguimos ordens.
Fui assistir ao discurso da Cristina em casa com aquela nuvenzinha preta sobre a cabeça. Foi a presidente acabar de falar e desabou o toró – a tempo de deixar sãos e secos os militantes declarados e os supostos militantes. Maldita chuva peronista.